Críticas internas e o momento delicado da Ubisoft
Atualmente, a Ubisoft enfrenta um dos períodos mais turbulentos de sua trajetória. Nos últimos anos, a empresa passou por demissões, reestruturações internas e lançamentos que, por sua vez, não alcançaram o público esperado. Nesse contexto, Alex Hutchinson, ex-diretor criativo da companhia, argumenta que parte dessas dificuldades decorre, sobretudo, de uma cultura corporativa cada vez mais resistente a riscos criativos e, ao mesmo tempo, da saída de talentos veteranos.
Em entrevista ao PC Gamer, Hutchinson destacou que, anteriormente, a Ubisoft se diferenciava justamente por incentivar autonomia entre suas equipes. Dessa forma, os estúdios conseguiam propor ideias ambiciosas e, consequentemente, desenvolver projetos em larga escala. Assim, a empresa fortalecia tanto franquias consolidadas quanto novas propriedades intelectuais.
Crescimento acelerado e mudança de mentalidade
No entanto, segundo Hutchinson — que dirigiu Far Cry 4 e Assassin’s Creed III — esse cenário começou a se transformar durante o período de expansão acelerada da indústria. À medida que investimentos externos aumentaram, muitos profissionais experientes deixaram a empresa e, consequentemente, fundaram seus próprios estúdios.
Inclusive, o próprio desenvolvedor cofundou a Typhoon Studios, onde posteriormente lançou Journey to the Savage Planet. Portanto, além da mudança estrutural, houve também uma perda gradual de lideranças criativas que, anteriormente, sustentavam o equilíbrio entre inovação e continuidade.
Projetos engavetados e resistência à experimentação
Além disso, Hutchinson afirma que a empresa passou, progressivamente, a rejeitar propostas mais experimentais. Como exemplo, ele menciona o projeto Pioneer, um jogo espacial que apresentava conceitos semelhantes aos de No Man’s Sky. Embora o título tenha sido discretamente referenciado em Watch Dogs 2, ainda assim o projeto permaneceu em desenvolvimento interno e, por fim, nunca recebeu anúncio oficial.
Segundo ele, historicamente, a Ubisoft sempre produziu sequências de grandes franquias; entretanto, paralelamente, também introduzia novidades relevantes. Contudo, nos últimos anos, a companhia teria se tornado mais cautelosa e, consequentemente, descartado ideias que poderiam renovar seu portfólio.
Dependência de franquias e desafios estratégicos
Como resultado, a empresa passou a depender ainda mais de suas marcas consolidadas. A franquia Assassin’s Creed, por exemplo, continua sendo o principal pilar do catálogo, especialmente com títulos como Assassin’s Creed Valhalla, Assassin’s Creed Mirage e Assassin’s Creed Shadows. Enquanto isso, por outro lado, séries como Far Cry enfrentam intervalos maiores entre lançamentos.
Ao mesmo tempo, quando a empresa tentou investir em novas IPs, como Immortals Fenyx Rising, esbarrou em custos elevados e, consequentemente, em dificuldades para recuperar o investimento. Além disso, Hutchinson ressalta que a Ubisoft demorou a se adaptar plenamente ao mercado digital; assim, manteve por muito tempo uma mentalidade próxima à de uma companhia focada em produtos físicos.
Diante desse cenário, que inclui cancelamentos, mudanças de liderança e desafios comerciais, Hutchinson acredita que a Ubisoft precisa promover transformações estruturais significativas. Em síntese, embora vários fatores tenham contribuído gradualmente para a situação atual, todos, de certa forma, apontam para a necessidade urgente de recuperar a ousadia criativa que, anteriormente, consolidou a reputação da empresa.

