A pressão exercida pela indústria de tecnologia e, ao mesmo tempo, a reação imediata dos consumidores ao novo aumento de impostos de importação — que afeta diretamente o preço de peças de computador e celulares no Brasil — levaram o Governo Federal a se manifestar publicamente para justificar a decisão. Diante da repercussão negativa, o ministro da Fazenda, Fernando Haddad, concedeu entrevista nesta quarta-feira (25) e, de forma enfática, defendeu a taxação. Segundo ele, a medida não busca punir o consumidor; ao contrário, pretende regular o mercado e, sobretudo, proteger a produção nacional.
Além disso, a nova regra amplia as tarifas de importação sobre mais de mil produtos, que vão desde máquinas para fabricação de papel e cartão até processadores e painéis de LCD. Inicialmente, o governo estima arrecadar cerca de R$ 14 bilhões adicionais neste ano. No entanto, embora o impacto fiscal seja relevante, Haddad priorizou outro ponto em sua argumentação: o combate à concorrência internacional considerada desleal.
“Ou produz aqui, ou não concorre”
De acordo com o ministro, a elevação tarifária surge como resposta direta ao cenário de guerra comercial global. Nesse contexto, ele argumenta que empresas estrangeiras — principalmente asiáticas — enfrentam barreiras nos Estados Unidos e na Europa e, consequentemente, redirecionam seus produtos ao Brasil a preços abaixo do custo. Assim, segundo ele, essa prática compromete a competitividade das fábricas nacionais.
Portanto, Haddad sustenta que o Brasil precisa adotar mecanismos de defesa comercial. “Ou você vem para cá produzir aqui, ou não vai poder concorrer nessa base de preço”, afirmou. Dessa forma, o ministro reforça que a medida busca equilibrar o mercado interno e, ao mesmo tempo, estimular a instalação de plantas produtivas no país.
Adicionalmente, ele declarou que mais de 90% dos produtos atingidos já contam com fabricação nacional. Logo, na avaliação do governo, a medida fortalece setores que já operam sob as regras brasileiras e que, por isso, enfrentam concorrência desigual.
Smartphones, PCs e os limites da indústria nacional
Por outro lado, o Ministério do Desenvolvimento, Indústria, Comércio e Serviços (MDIC) informou que 95% dos smartphones vendidos no país são produzidos localmente. Nesse cenário, marcas como Apple e Xiaomi podem sofrer maior impacto com a nova tributação. Ainda assim, o governo argumenta que a maior parte do mercado já se encontra nacionalizada.
Entretanto, quando se observa o setor de PCs e componentes, a realidade se mostra diferente. O Brasil não possui fundições de semicondutores comparáveis à TSMC. Além disso, o país não fabrica processadores como os da AMD ou da Intel, tampouco placas de vídeo da NVIDIA. Consequentemente, ao elevar a tarifa desses itens, o governo encarece produtos cuja importação permanece essencial, já que não existe produção equivalente em território nacional.
Apesar das críticas — inclusive da tentativa do Partido Novo de derrubar a medida no Congresso — Haddad manteve sua posição. Ainda assim, deixou uma possibilidade de revisão. Segundo ele, o MDIC poderá ajustar ou até zerar temporariamente determinadas tarifas, caso fique comprovado que setores específicos sofrem prejuízos sem que haja produção nacional correspondente. Dessa maneira, o governo sinaliza firmeza na política adotada, mas, ao mesmo tempo, admite eventuais correções conforme os efeitos práticos da medida se tornem mais claros.