Diretor de Cyberpunk 2077 relembra lançamento desastroso: “Foi muito doloroso”
Cyberpunk 2077 se tornou um dos exemplos mais impressionantes de recuperação na indústria dos games. O RPG da CD Projekt Red saiu de um lançamento cercado por críticas e problemas técnicos para alcançar reconhecimento como uma das experiências mais elogiadas da atualidade. Para relembrar essa trajetória, o portal RPG Site entrevistou Paweł Sasko, Diretor Associado da CD Projekt Red, que falou abertamente sobre o conturbado lançamento de 2020 e compartilhou detalhes sobre sua filosofia de criação de quests.
“O lançamento foi muito doloroso”, diz diretor de Cyberpunk 2077
Paweł Sasko não esconde o impacto emocional causado pelo lançamento de Cyberpunk 2077. Com mais de 15 anos de carreira na CD Projekt Red, ele participou da produção de The Witcher 2: Assassins of Kings e teve papel fundamental como Designer de Quest e Líder nas expansões de The Witcher 3. Ainda assim, ele descreve o lançamento de Cyberpunk 2077 como um dos momentos mais difíceis de sua trajetória profissional.
Segundo Sasko, antes da estreia havia uma combinação de orgulho, expectativa e pressão. A equipe acreditava no potencial do projeto e sabia que estava trabalhando em algo extremamente ambicioso.
“Antes do lançamento, havia muito orgulho, muita pressão e muito esforço. Sabíamos que o jogo era incrivelmente ambicioso; sabíamos que Night City era algo especial.”
No entanto, a recepção inicial mudou completamente o cenário. Problemas técnicos, bugs e críticas de jogadores transformaram o período pós-lançamento em um desafio para toda a equipe.
“O período de lançamento foi muito doloroso; não quero fingir o contrário. Quando você trabalha em um jogo por anos, não o vê apenas como um produto. Você vê as pessoas por trás dele.”
De acordo com o diretor, a reação negativa da comunidade foi encarada com seriedade dentro do estúdio. Em vez de ignorar as críticas, a equipe precisou analisar o jogo sob a perspectiva dos jogadores.
“Tivemos que ouvir. Tivemos que olhar para o jogo pela experiência do jogador, não apenas pela nossa intenção.”
Phantom Liberty e a reconstrução da confiança dos jogadores
Atualmente, Sasko afirma sentir uma mistura de orgulho e aprendizado ao olhar para a trajetória do RPG. Ele destaca que a expansão Phantom Liberty, a Atualização 2.0 e os diversos patches lançados ao longo dos anos foram fundamentais para recuperar a confiança da comunidade.
Um dos momentos mais marcantes dessa jornada aconteceu durante o The Game Awards 2023, quando Cyberpunk 2077 conquistou o prêmio de Melhor Jogo em Evolução (Best Ongoing Game). Sasko subiu ao palco ao lado de Gabe Amatangelo para receber a homenagem.
Segundo ele, aquela conquista não apagou os erros do passado, mas serviu como reconhecimento ao esforço de centenas de desenvolvedores e à fidelidade dos jogadores que continuaram apoiando o projeto.
“Aquele momento não foi para fingir que o lançamento não aconteceu, mas para agradecer às centenas de desenvolvedores que colocaram seus corações no jogo e aos jogadores que ficaram conosco, voltaram ou se juntaram a nós mais tarde.”
O segredo por trás das quests mais memoráveis
Durante a entrevista, a conversa também abordou o design narrativo, especialmente o sucesso de quests icônicas como Barão Sangrento, de The Witcher 3.
Para Sasko, o impacto dessa missão está diretamente ligado à sua complexidade emocional. Em vez de apresentar respostas fáceis ou personagens totalmente bons ou maus, a história aposta em dilemas humanos e situações moralmente ambíguas.
“Barão Sangrento ficou com as pessoas porque é confuso, desconfortável, triste, humano e moralmente complicado. Toca em temas que a maioria dos jogos AAA nunca ousou abordar.”
O desenvolvedor acredita que personagens memoráveis precisam apresentar contradições, falhas e segredos. Da mesma forma, grandes quests devem provocar reflexão e desafiar a percepção do jogador.
“Um bom personagem tem contradições, fraquezas, segredos. E uma boa quest tem atrito. Uma história bem construída não te diz imediatamente como se sentir.”
O equilíbrio que torna um RPG inesquecível
Outro ponto destacado por Sasko foi a importância do ritmo narrativo em RPGs extensos. Segundo ele, o contraste é um dos elementos mais importantes para manter o envolvimento do jogador ao longo de dezenas de horas.
“Se toda quest é trágica, o jogador fica entorpecido. Se toda quest é enorme, nada parece enorme.”
Por isso, a equipe busca alternar momentos de combate, investigação, diálogos intimistas e até situações aparentemente leves que acabam revelando camadas mais profundas da narrativa. Para o diretor, uma das lições mais difíceis no desenvolvimento de jogos é saber quando parar de adicionar conteúdo.
“Às vezes, a coisa mais forte que você pode fazer é deixar um momento terminar e confiar que o jogador vai carregá-lo.”
A declaração ajuda a entender não apenas o sucesso de Cyberpunk 2077 após sua recuperação, mas também a filosofia criativa que continua guiando a CD Projekt Red em seus próximos projetos.














